A Banalidade do Bem (português)

"Déjeme decirle, a riesgo de parecer ridículo, que el revolucionario verdadero está guiado por grandes sentimientos de amor..."

Che Guevara

O tema solidariedade, com uma vasta sucessão de pensadores de esquerda e direita, tem planteado um reino que transcenda as dores e conflitos do cotidiano. E como afirma Eagleton[1] o resultado foi e será sempre uma série de oposições nítidas entre o mito e a ilusão social, a bondade e a troca de equitativa, o Real e o Simbólico, o semiótico e o simbólico, a liberdade e a má fé, a teoria e a ideologia, o evento e a ontologia e entre a caridade e a emancipação, a manutenção do sistema e a superação das classes sociais, a caridade neoliberal e a solidariedade orgânica.

A história tanto é emancipação como opressão e nossas lutas estão inseridas nas novas tecnologias neoliberais, porem são também insurreição política e continuidade revolucionária. A chamada esquerda intelectual austríaca, ao colocar o mundo social cotidiano e seus conflitos gritantes, como os d@s refugiad@s políticos, entre as grades da caridade, tem um problema com a concepção das lutas cotidianas, com as pequenas libertações, com o trivial e corriqueiro do cotidiano como processo de luta e educação política. Não é suficiente falar de um processo dialético, e depois tratar a história como uma série de fatos fixos que sucedem uma o outro ou ainda como totalidades fechadas[2].

A esquerda austríaca, desprovendo o cotidiano de validade revolucionária e produzindo um elitismo moral, vivencia o lugar comum como uma quase afronta, um soporífero, um estado de ataraxia e tédio[3] perdendo assim o senso das pequenas libertações e da solidariedade revolucionária. A tensão necessária entre o respeito à vida e a hostilidade às forcas e às ilusões que a instrumentalizam, confundindo solidariedade com o sistema político que a regula, parecem não fazer parte da reflexão sobre a ajuda humanitária a@s refugiad@s. Solidariedade que pode ser uma resistência ao poder, carrega também o germe da cumplicidade, pois pode produzir um impacto desviante da luta de classes para formas de lutas inofensivas e ineficazes e de colaboração com o neoliberalismo. Estas ações caritativas neutralizam a oposição política pela base, enquanto a macroeconomia neoliberal é promovida pelo alto. Estamos nos deixando enganar pelas aparências habituais, sem buscar os mecanismos invisíveis que lhe dão origem? Será influencia germânica de Heidegger que distinguia entre heroísmo e mediocridade, o excepcional e o médio?

Diante de uma Europa perplexa e apavorada pelo terror da invasão incontrolável e do maciço influxo d@s refugiad@s, sonha-se com o ato gratuito, um momento de conversão que retire os refugiados do reino da necessidade para o campo da liberdade. Entretanto em cada polo da oposição implica inexoravelmente o outro, em que o ego, o narcisismo não devem ser descartados com tanta simplicidade e que o poder, a má fé, a boa intenção e a Performance caritativa são inseparáveis. A esquerda liberal austríaca, quase sempre insubmissa, em um lampejo caridoso, aplaude e elogia extravagantemente as forças repressivas e estreita laços com a bondade hipócrita da democracia cristã. A solidariedade de classe converte- se em locais fragmentados nos quais grupos específicos se engajam em relações recíprocas de caridade pela sobrevivência baseada na paz burguesa. A solidariedade destituída das classes, fenômeno extraclasse, é um gesto humanitário, cuja ideologia, vinculações e práticas estão em conflito e competição direta com a teoria e a prática marxista. A filosofia básica da caridade com os refugiad@s é transformar a solidariedade em colaboração e subordinação à macroeconomia do neoliberalismo.

Esta é uma práxis cindida como uma forma de derrota do impulso da construção do novo ser humano marxista e de superação das classes sociais. A esquerda austríaca parece afirmar a emancipação política como impossibilidade. Não devemos abrir mão de nossos sonhos do reino da justiça ou de um império do amor além da lei, mas também não devemos tentar dar-lhes vida, pois nisso residem a psicose, o totalitarismo ou algum outro macabro túmulo do espírito.

Solidariedade Orgânica[4]

O conceito marxista de solidariedade enfatiza a solidariedade de classe e, no interior dela, a solidariedade às minorias oprimidas contra os seus exploradores.O principal foco não é sobre as ações e doações que dividem as classes e pacificam pequenos grupos por um período limitado de tempo. O foco do conceito marxista de solidariedade é sobre a ação comum dos mesmos membros das classes que partilham infortúnios econômicos comuns, lutando por avanços coletivos.

O humanismo sentimental da classe média e do pós-modernismo despolitizado da intelectualidade, que estão embutidos num mundo de instituições e ações reprodutoras das classes sociais, distanciam –se do conceito marxista de intelectuais orgânicos, que são basicamente parte do movimento e partilham seus riscos o recurso humano que propicia análise e educação para a luta de classe, devem ser denunciados como farsa desprezível, pois tratam refugiad@s em passagem pela Áustria a caminho da Alemanha, como próximos e repudiam os refugiados próximos que solicitam asilo politico na Áustria, com distancia, indiferença e ameaça. As ações caritativas com @s refugiad@s nas fronteiras com a Hungria foram superfaturadas moralmente pela esquerda, esquecendo esta que fez um pacto com o sistema neoliberal excludente. Ao incorporar o refugiado à economia neoliberal por intermédio puramente da ação privada voluntária, as esquerdas europeias criam um mundo político no qual a aparência de solidariedade e de ação social dissimula uma conformidade conservadora com a estrutura de poder nacional e europeia. A solidariedade não pode ser asistencial e acrítica,mas deve ser fruto da percepção e da compreensão da condição histórica d@s milhões de refugiad@s.

É desde a justiça social que devemos agir e não com atos de caridade e marketing do bem. A principal questão é o processo de luta e educação política com vistas às profundas transformações politicas, morais, sociais e simbólicas. A solidariedade na luta coletiva contém as sementes da futura sociedade colaborativa democrática.

A solidariedade orgânica busca sua inspiração nas rupturas paradigmáticas do Movimento Zapatista e nas suas declarações de princípios, como:

"É necessário pensar em novas formas de relação entre a organização política e o conjunto da sociedade. Novas formas de relação onde a ética e a política não sejam inimigas. "

°É necessário que no movimento e organização política não só não se contraponham, mas que a una um a serviço do outro.°

"É necessário o diálogo com e entre os espaços de participação e os movimentos, a capacidade de convocar uns aos outros, de promover ações conjuntas, e de somar e somar-se a suas iniciativas.°

°É necessário um espaço de participação que, perante os movimentos e com eles, possa organizar a demanda e a satisfação dos direitos populares, possa organizar a resistência e o desenvolvimento de formas sociais de autogestão, possa reconhecer a aparição de novos atores sociais e acompanhar suas mobilizações, possa organizar e promover a vigilância dos cidadãos sobre os governantes, e possa criar novos espaços de mobilização.°

"É necessário que o espaço de participação política tenha movimento interior para não congelar as idéias como verdades inamovíveis, mas que os pensamentos estejam em uma contínua confrontação com a realidade, e que o espaço de participação gere um pensamento crítico desde o Poder até a si mesmo.°

°É necessário que o espaço de participação tenha lugar para a voz de todas e todos os que nele se encontram.°

°É necessário que o espaço de participação faça da construção coletiva seu interesse principal.°

°...por tratar de ocupar um espaço vazio e não para competir com outros, por tratar de aportar algo novo e não para disputar o monopólio do velho, para tratar de somar e não de dividir, para tratar de construir e não de destruir, para tratar de convencer e não de vencer, para tratar de acompanhar e não de dirigir, para tratar de incluir e não de excluir, para tratar de representar e não de suplantar, para tratar de propor e não de impor, para tratar de servir e não de servir-se.° [5]

A solidariedade orgânica, como obra política e uma ação coletiva, recupera a crítica e a autocrítica marxista e retoma a busca por um mundo melhor, mais ético e essencialmente justo, como uma aposta cujo resultado é indeterminado, mas que nos coloca diante de uma escolha entre a manutenção do poder neoliberal e a construção de uma nova sociedade.A solidariedade orgânica compreende o outro estrangeiro como protagonista, participe das ações horizontalizadas em uma sociedade verticalizada , compreende @ estrangeir@ como diferente insubstituível e igual aos demais,como força política que soma sua luta com a de outras forças para lograr a transformação democrática real; uma força política que com sua prática contribua para a construção de uma nova forma de fazer política; uma força política que lute para que o que fazer político seja um espaço de cidadania, que não use aos cidadãos e cidadãs, mas que seja veículo e pretexto para o movimento social e político; uma força política que não olhe de cima em seu caminho e aspirações, mas que se dirija aos lados em suas palavras, ouvidos e esforços; uma força política que sempre levante a bandeira da dignidade rebelde onde quer que se encontre. É uma retomada de uma longa caminhada, desesperançada no pasado e,porl ongo tempo, tida como um sonho. Que seja uma utopia, não obstante uma utopia possível.

Nestes dias de embates ideológicos sobre a migração, surge para a militância de esquerda a possibilidade de desatar se de um presente não utópico e sem futuro. Na perspectiva de Bloch surge a oportunidade de uma consciência antecipatória interagir com o que está surgindo na história e no mundo, e na iminência de acontecer. São os momentos de reinventar a utopia. Para Jameson, grandes períodos de fermentação social, sem comando aparente e sem direção, que demonstram distância entre a imutabilidade do sistema e a inquietude turbulenta do mundo, parecem criar um momento propício para a livre criação de utopias na própria mente ou na imaginação política. [6]

°O mundo está, antes, repleto de disposição para algo, tendencia para algo, latencia de algo,e o algo assim intencionado significa plenificação do que é intencionado. Significa um mundo mais adequado a nós, sem dores indignas, angústia e auto-alienação. °[7]




Fußnoten

[1] EAGLETON, Terry. O problema dos desconhecidos, Um Estudo sobre a Etica, Civilizaçao Brasileira, Rio de Janeiro, 2010

[2] BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança. V1.Trad.Nélio Schneider. EDUERJ: Contraponto. Rio de Janeiro. 2005

[3] Idem

[4] Não estou utilizando o conceito de Émile Durkheim de Solidariedade Mecânica e Solidariedade Orgânica e sim o conceito de Gramsci. Na sociologia gramsciana, os intelectuais de tipo orgânico, ao se desenvolverem, deparam-se com os de tipo "tradicional", herdados de formações histórico-sociais anteriores: clérigos, filósofos, juristas, escritores e outros. Estes intelectuais tradicionais têm um forte sentimento de continuidade através do tempo e veem-se como independentes em relação às classes sociais em luta. De um certo modo, estas últimas tentam capturar para si estes intelectuais tradicionais no processo da luta pela hegemonia. No caso da classe operária, para Gramsci, a luta seria no sentido de afirmar um novo intelectual, não mais afastado do mundo produtivo ou encharcado de retórica abstrata, mas capaz de ser, simultaneamente, especialista e político. Em outras palavras, capaz de exercer uma função dirigente no novo bloco histórico.

[5] EZLN em sua IV Declaração da Selva Lacandona, Frente Zapatista de Libertação Nacional, 2007

[6] JAMESON, Fredric. A política da Utopia. In Contra golpes. Organização Emir Sader; Tradução Beatriz Medina. Seleção de artigos da New Left Review. Boitempo. São Paulo. 2006

[7] BLOCH, Ernst. O Princípio Esperança. V1. Trad. Nélio Schneider. EDUERJ: Contraponto. Rio de Janeiro. 2005




"Wir sind eine Armee der TräumerInnen und deshalb sind wir unbesiegbar. Wir können gar nicht verlieren. Oder besser gesagt, wir verdienen nicht zu verlieren. "Subcomandante Marcos