Viver de fora … e dentro? (português)

Desabafo de uma imigrante brasileira que vive na Itália em uma situação muito específica, mas que de repente se viu tocada por uma realidade que sempre acreditou estar muito distante …

Quando a redação do migraZine me escreveu perguntando-me se tinha interesse em ser entrevistada sobre a situação da imigração na Itália, depois da aprovação da lei que criou o reato de imigração clandestina, respondi dando a minha completa disponibilidade a fazer a entrevista, mas ressaltando que não me considerava a pessoa mais adequada a tratar do assunto.

O meu processo migratório totalmente subjetivo, e inexistente na prática: sou branquinha, falo italiano perfeitamente, tenho sobrenome italiano e, o mais importante (aos fins da minha total exclusão do mundo real dos imigrados), tenho cidadania italiana.
Portanto me parecia muito limitado — e bastante hipócrita — ser porta-voz de um problema que não vivo em primeira pessoa.

Até que na manhã do dia primeiro de setembro, indo à universidade, me deparo com um batalhão de policiais que bloqueiam algumas das ruas que dão acesso a algumas faculdades, dentre as quais aquela a qual me dirigia.

Desço do ônibus e começo a me informar: estão despejando os moradores do "ex-Regina Elena", um reparto do hospital que pertencia à Universidade "La Sapienza", abandonado desde 2001, e ocupado por dezenas de famílias sem teto — italianas e imigrantes — desde 2007.

Entro na Castro Laurenziano, uma das ruas bloqueadas, e tento chegar à rua Scarpa, onde teria uma reunião. Sem sucesso, ninguém passa, e é possível chegar até um certo ponto da rua, um pouco antes do portão de entrada do "Regina Elena". Parece uma operação de guerra: policiais civis e militares em fila, munidos de escudo e cacetete.

Lembro-me então das muitas vezes que, saindo à noite da universidade, via as crianças jogando bola na rua. Era uma cena nada espetacular, mas sempre me chamava a atenção. Era óbvio que aquelas crianças tão vivazes, tão simples — daquela simplicidade infantil que hoje é difícil de reconhecer até mesmo nas crianças mais pequenas — não podiam ser filhos da classe média italiana. Aquela cena me dava sempre uma sensação de felicidade. Que bom … ainda há crianças que brincam na rua!

Penso que da próxima vez que sair à noite da universidade, não vou mais encontrar aquelas crianças jogando bola na rua. Esse pensamento me devastou, e me senti mãe dessas crianças, e irmã dos seus pais, e filha dos seus avós, e amiga dos seus amigos.

Afasto-me da rua Castro Laurenziano e um mar de lágrimas começa a cair, de raiva, de impotência, de injustiça sentida na pele, injustiça com aquelas crianças que, sem querer, tinham se tornado também minhas.

Aproximo-me de um dos policiais e pergunto com aquele ar irritante e gentil de adolescente sarcástico, que infelizmente nunca perdi: "Perdão, mas o senhor não se envergonha de fazer este trabalho?" Não, não se envergonha, eu é que devia me envergonhar … quem sabe, talvez ele tenha razão.
Atravesso a rua boquiaberta e me aproximo de uma mulher da polícia municipal: "Perdão, mas o que a senhora sente quando tem que fazer esse tipo de coisa?" Ela não sente nada, nem sabe quem são aquelas quase 600 pessoas que estão sendo mandadas embora de casa, ela começou a trabalhar as 4 da manhã, e está somente fazendo o seu trabalho, tentando organizar o trânsito.

Tento colher o sentimento das pessoas que estão por ali, o que pensam, o que sentem. Um homem me explica que desde o início da ocupação a Universidade vem pedindo a liberação daquele edifício, porque deve transformá-lo em um departamento oncológico.

Mas então não consigo entender porque aquele espaço foi abandonado em 2001. Por que lá dentro ainda estão equipamentos médicos caríssimos, inutilizados, abandonados? Por que o edifício, quando foi ocupado há mais de dois anos, estava caindo aos pedaços, e agora todos os andares tinham se transformado em moradia, onde todos colaboravam para a boa manutenção dos espaços?

Dizem que as centenas de pessoas — pegas de surpresa com a operação policial — serão transferidas para centros de acolhimento, ou para outros edifícios na periferia. Dizem que a operação era necessária, para o bem da coletividade, que poderá contar com um novo reparto do hospital.

Encontro um homem que se mostra muito contente com o despejo. Porque lá dentro, no "Regina Elena", só tinha extracomunitário. Dizia extracomunitário. Queria dizer "merda", mas era muito politicamente incorreto.

Agora que o "Regina Elena" foi liberado, me pergunto: os italianos que moravam lá, para onde irão? Quanto à "merda", certamente parte dela pode ser expulsa da Itália. Outra parte pode ir presa, afinal, na Itália, pra ser criminoso basta ser um imigrante sem visto. Merda.

Passei minha manhã do dia primeiro de setembro imersa em um mundo que acreditava tão longe do meu, e que de repente senti tão meu.

Indo embora, viro a esquina da avenida "Regina Elena", perto da faculdade de medicina, e me deparo com um grupo de pessoas, algumas chorando. Seriam parentes dos despejados, penso; seriam integrantes de associações de voluntariado; seriam outros sem-teto. Sinto em enorme desejo de dividir com eles minha indignação, minha tristeza por aquilo que estava acontecendo. Chego perto de um deles, que não chorava, e pergunto, já sabendo a resposta, mas não querendo parecer atrevida demais: "O que está acontecendo?". E ele me responde: o velório é ali, virando a esquina. Desculpo-me, e vou embora com esse pensamento … o velório é sempre ali, atrás da esquina.